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O passado também desaparece da internet

O passado também desaparece da internet

Há uma notícia recente que merece mais atenção do que provavelmente terá: o Arquivo.pt Award 2026 distinguiu projetos que usam o arquivo nacional da Web para investigar, ensinar, fazer jornalismo e preservar memória cívica. Foram 58 candidaturas aprovadas.

Entre os trabalhos reconhecidos, há um que considero especialmente importante para quem acompanha a política portuguesa: o “Arquivo eleitoral”. O projeto organiza mais de 12.000 promessas feitas por partidos portugueses entre 2002 e 2025. Permite pesquisá-las por partido, eleição e tema; permite também recuperar materiais que podem ter desaparecido dos sites onde foram publicados.

A política digital não deixa necessariamente um rasto Isto parece uma questão técnica, mas não é. Durante muito tempo, os historiadores trabalharam com jornais impressos, atas, cartas, cartazes, programas partidários e arquivos administrativos. Sabíamos, com alguma segurança, onde procurar. A política digital alterou esse cenário.

Uma promessa eleitoral pode desaparecer depois de uma remodelação do site, de uma mudança de domínio ou simplesmente porque deixou de ser conveniente mantê-la visível. Não é preciso imaginar uma conspiração; bastam o tempo, decisões administrativas e alguma falta de cuidado.

Sem arquivo, perde-se a possibilidade de comparar o que foi prometido com o que foi feito; ou, mais modestamente, com aquilo que voltou a ser prometido quatro anos depois. A memória política fica então dependente da repetição. E quem repete mais alto nem sempre é quem tem razão.

Arquivar não é acreditar Os outros projetos premiados também são reveladores: um acompanha três décadas de jornalismo regional português; outro estuda a fraude online entre 2000 e 2012; outro recupera dados históricos sobre o custo de vida a partir de sites arquivados.

Na escola, eu insistia que uma fonte não se torna verdadeira apenas por estar escrita. Era preciso perguntar quem a produziu, quando, para quê, e o que ficou de fora. Com páginas políticas arquivadas, a disciplina deve ser a mesma. Um arquivo não elimina a propaganda; permite estudá-la melhor.

Como escreveu George Orwell, numa frase frequentemente simplificada: “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.” Não é uma receita para transformar todo o arquivo numa arma partidária. É um aviso sobre o poder de selecionar, apagar e ordenar os vestígios do tempo.

O que ficará disponível para os eleitores de amanhã? Talvez uma das tarefas cívicas mais importantes da preservação digital seja garantir que os cidadãos de amanhã possam consultar não apenas os discursos que sobreviveram por acaso, mas também as promessas que hoje julgamos pouco importantes.

Que promessas políticas portuguesas de 2002 ainda reconhecemos; e quais preferimos esquecer?

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